"Seu" Pereira era um homem simplório e conservador. Não esquecia jamais de ler a seção de política do jornal, de lavar o seu Fiat 147, jogar dominó com os seus colegas e também de criticar a degradação moral que teria tomado conta da sociedade.
Era tão radical quando a questão em pauta era sobre moral e bons costumes, que os seus companheiros de dominó, alguns deles fatigados boêmios, suspeitavam que "Seu Pereira" deveria ter feito parte de algum mitológico Tribunal Militar do passado.
Só que o tempo costuma ser implacável até com os homens de fibra, o que fez a sua filha contratar uma empregada para cuidar dos afazeres domésticos que "Seu" Pereira sempre orgulhou de não depender de mulher nenhuma para fazê-los.
Alice, o nome dela. Mulher feita, de sorrisos largos e olhos caridosos, que a filha de "Seu" Pereira cuidadosamente escolheu para que o velho não caísse, em suas próprias palavras, no "conto da Lolita".
Todavia, Alice foi chegando de mansinho em sua vida: primeiro tomou conta da casa de "Seu" Pereira, cuidando da louça, lavando a sua roupa e fazendo, com açúcar e com afeto, variados quitutes para adocicar as até então solitárias tardes do velho guerreiro.
Entupia de alegria o seu cotidiano até então amargo, levando flores e sorrisos para a sua casa. Cantava, enquanto varria um chão e outro, antigas canções de amor que "Seu" Pereira só tinha ouvido na primavera de sua vida. E quando "Seu" Pereira adoecia, Alice costumava passar horas ao seu lado, entre chás, remédios e cafunés, ciente de que medicina nenhuma é mais poderosa do que a cura pelo carinho e pelo companheirismo.
E, inesperadamente, aconteceu! A bela diminuiu a resistência do incansável combatente e superou sua derradeira trincheira, a que ele construiu entre o seu coração e as coisas belas da vida.
E tudo mudou! Seus vizinhos passaram a assistir, diariamente, o velho cantarolando, em tons irritantemente desafinados, antigos boleros ao lavar o seu carro. O jornal de cada dia e a sua seção de política foram deixados de lado, para dar lugar a antigos LP's de Vinícius, Cartola, Chico, Pixinguinha...
A alegria era tanta que até os sabiás pousavam com mais frequência em sua janela, a fim de roubar as melodias que o velho apaixonado entoava todos os dias.
No dominó, os seus companheiros ficaram assustados ao notar que o velho soldado já não era mais competitivo como outrora.
"Companheiros, no jogo do amor e da vida não há vencedores nem perdedores!" teria dito "Seu" Pereira, para assombro geral! Afinal, corre a bocas largas por aí que o velho combatente, enfim, encontrou o amor.
E "Seu" Pereira? O que acha disso? Ele, na verdade, continua sendo o velho guerreiro de fé, orgulhoso das inúmeras medalhas e homenagens de honra ao mérito que leva ao peito.
Todavia, o que "Seu" Pereira mais se orgulha hoje, de verdade, é do seu coração que, ao 87 anos de idade, parece a cada dia estar batendo mais forte.
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