"Todo mundo espera alguma coisa de um sábado a noite" - Lulu Santos (o poeta)
Quando afirmo, em uma conversa de pé de ouvido ou ponta de mesa-de-bar qualquer, que o programa televisivo mais importante dos solteiros e solteiras da nossa geração é o Zorra Total, a grande maioria pensa que eu estou de deboche ou que simplesmente estou tentando emplacar mais uma daquelas filosofias de boteco que fatalmente serão relegadas ao lixo da história da boemia.
Sim, é o que você leu. O Zorra Total, programa de humor por tantas vezes discriminado e injustiçado, é o símbolo da nossa classe. Não pelo seu conteúdo, que admito que é sofrível - apesar de às vezes gostar de uma ou outra piada - mas pelas paixões que desperta.
Paixões. Nunca imaginou, não é mesmo? Você, pessoa que optou pela solteirice em uma época em que o engalfinhamento, o cuti-cuti, a união estável e a renda fixa é palavra de ordem, já conhece o enredo. Tudo começa com uma singela conferida no relógio: sábado a noite, 21:57. Você, embora não queira pensar no assunto, sabe que o capítulo da novela das 9 atingirá o climáx em poucos segundos e a programação da Rede Globo terá sequência. Um súbito calafrio percorre a sua medula espinhal, e o calafrio se transforma em um pensamento que nunca tinha te ocorrido antes. Finalmente você enxerga a luz: "Não tenho companhia para o sábado a noite".
Sim, solteiro e solteira de plantão, você passou o dia pendurado ao telefone, no msn, no orkut, facebook e twitter sondando os seus amigos acerca dum barzinho, ou uma balada nova que abriu na cidade, ou uma reunião no Outback, ou um corujão na lan-house, e o máximo que conseguiu obter é "verei com minha namorada o que faremos e te dou um toque".
Enquanto você saboreia cada piada sem-graça do Zorra Total, você pensa nos primeiros capítulos do enredo que levaram a este malfadado sábado a noite: após passada a temporada das festas de formaturas de faculdade, os seus outrora incansáveis companheiros de batalha foram tombando, um por um, e os que restaram, já não eram mais os mesmos. Você, por óbvio, ignorou todos estes sinais, pensando que era uma febre, uma onda, ou simplesmente a nova moda anunciada, e continuou levando a sua vidinha normalmente. Até que surgiu a vinheta de entrada do Zorra-Total.
Ah, o estalar de dedos! Quantos movimentos, revoluções, golpes, contra-golpes e por aí vai não tiveram início nestes pequenos momentos epifânicos que os cientistas rotulam como "Eureka", os franceses rotulam como "Uh-lá-lá", e toda a nossa geração de solteiros e solteiras desgarrados rotulam como "CARALHO! PORRA!". Sim, toda teoria e toda revolução tem o seu substrato ideológico e o nosso foi obtido no exato momento da vinheta de entrada do Zorra Total.
Neste momento, nosso cérebro começa a fervilhar de ideias panfletárias, subversivas, revolucionárias, formando, enfim, a nossa consciência de classe. Passado tal momento, a dúvida que começa a martelar na nossa cabeça é: lutar pelos nossos direitos e por uma vida mais digna, ou aderir à renda fixa do amor?
Veja bem, se os psicólogos, estatísticos, sociológos e produtores de programas de desocupados de plantão se debruçassem sobre o tema e pesquisassem os frequentadores de sites e agência de relacionamento, não me surpreenderia se descobrissem que o exato momento em que decidiram empreender esta busca inglória foi quando da entrada da vinheta do Zorra Total.
Assim, caro solteiro e solteira de plantão, nunca, jamais, por nenhum motivo subestime o poder libertador do Zorra Total. Respire fundo, conte até 10, lembre-se das mais doces e selvagens lembranças dos gloriosos anos de solteiro (a), encare a vinheta do programa. E façamos de cada televisor ligado no momento da entrada da vinheta do Zorra Total o ponto de partida para nossa revolução!