domingo, 3 de outubro de 2010

Trivial da aeromoça

Ah, o sorriso da aeromoça! Existe algo mais encantador e terapêutico do isto? Encantador porque, há milhares de pés de altura, em torno do medo de voar, turbulências e aviões sequestrados por fundamentalistas e vilões de hollywood, tudo o que desejamos ver é o seu sorriso acolhedor. Terapêutico porque a simpatia destas belas moças faz mais bem e acalma mais do que o suquinho empacotado servido à bordo. A lata de cerveja. Ou o lanche natural, com peito de peru e queijo branco, por favor.

Pense no nosso mundo, em que a integração dá lugar a intolerâncias raciais, religiosas, musicais e etílicas. É justamente há milhares de pés de altura, depois de parcelar em 10 vezes a sua passagem aérea, passar por tortuosas filas de check-in e raio-x de última geração, que o sujeito encontra seu lugar. Porque toda pessoa à bordo tem o direito fundamental e irrevogável ao sorriso da aeromoça. Ou seja, cada um dos seus passageiros tem o seu quinhão do charme e beleza destas mulheres, que foram treinadas para serem encantadoras em qualquer situação.

Sim, não há turbulência, avião sequestrado ou dor de cotovelo capazes de retirar o sorriso destas, que se tornam, durante 40 minutos, 2 horas, 8 horas, enfim, o tempo do vôo, o ideal de mulher que gostariam de ter em casa: bonita, charmosa, educada e de 2 em 2 horas vindo te oferecer alguma coisa, sorrindo.

Para os mais velhos, é como se houvesse uma volta ao passado, longe da libertação feminina, das mulheres que dizem "não!" furiosas e todo essa história de igualdade de direitos. Para os mais novos, igual este que vos escreve, é a descoberta de um novo mundo, é como se existissem belas mulheres possuidoras de um altruísmo com o pobre viajante comparável à Madre Teresa de Calcutá.

Mulheres, não se enganem: dentro de um vôo o chamado amor platônico rola solto. Porque todo rapaz de bem, há não ser que seja ruim da cabeça ou doente do pé, não resiste a um "você está confortável?" seguido de "gosta de cerveja? ou talvez um copo de vinho?". Ou uma combinação de "por favor, desligue o seu celular que vamos decolar" seguido por "está tudo bem com você?". E assim nos conquistam porque são especialistas em incorporar certas utopias masculinas, como um mundo feminino sem TPM ou mau-humor sem a menor explicação racional.

E não adianta chororô nem ter ciúme delas. Elas são imbatíveis justamente porque nem por decreto presidencial fazem a cara feia que você fará ao notar que o seu amado em 2 horas estará com dor no pescoço de tanto virar para acompanhar o desfile das aeromoças entre os corredores do avião.

Se executivos e empresários hoje adoram ler pergaminhos de monges tibetanos, livros de generais chineses ou de famosos samurais japoneses pra aplicar nos seus negócios, fico surpreso como ainda não surgiu um best-seller escrito por uma aeromoça americana qualquer ensinando, tintim por tintim, as moçoilas desamparadas a conquistar nós, pobres homens mortais e indefesos ante o seu charme e simpatia. "Faça o seu amado se sentir nas nuvens", talvez seria a chamada do sagrado livro, traduzido para um infame português.

Mas, namoradas e esposas de plantão, não há motivos para desespero: nós homens somos indefesos, mas não ingênuos. Sabemos que o sorriso da aeromoça não é eterno, e o sonho pode virar em pesadelo logo depois que nossas queridas comissárias de bordo colocarem os seus angelicais pés em terra firme, transformando o sorriso em cara de birra, a reclamar do passageiro do 22-D que pediu água 3 vezes, ou do galanteador do 12-J, que não parou de pedir o telefone dela.

Não, não queremos esta decepção, e o "tchau, boa viagem" da aeromoça no final do vôo é o fim de um amor que durou um pouco mais que a comida fria servida pra classe econômica, que obviamente era onde nós (eu, pelo menos) estávamos. Por óbvio que entre o "bem vindo" sorridente do embarque e o "tchau, boa viagem" mais sorridente ainda, a imaginação dos passageiros é livre para sonhar com casamentos, casas no campo, e até o labrador correndo serelepe pela casa. Aliás, qual será o próximo vôo?

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