Quando se fala sobre a conhecida "Era das Trevas", muitos pensam nos reis, cavaleiros, no clero peraltinha ou na pobreza da maioria. Os mais "sabidos" ressaltam a lacuna intelectual, as pestes e as guerras enquanto os mais sonhadores recordam a magia dos caldeirões das bruxas e dos terríveis dragões. Lembram de Robin Hood, Merlin, Rei Arthur e William Wallace, dentre tantos outros heróis.
No entanto, poucos conhecem a história do alfaiate de Saracusa. Certamente, o verdadeiro merecedor do título de herói de todos aqueles séculos carentes de novelas da globo e livros da série Crepúsculo.
Com os dentes levemente esverdeados e cabelo ensebado, o alfaiate fazia diariamente roupas estonteantemente bonitas para os senhores mais ricos de Saracusa. Era inevitável não perceber o disparate da beleza e das cores das roupas que criava para as que vestia, tendo em vista os panos acinzentados e sujos que usava sobre o corpo.
Tinha os dedos rápidos e olhar profundamente concentrado em seu trabalho. Estava na maior parte de seus dias sozinho, acompanhado somente de seu radinho de pilha e seu queijo mineiro falante.
Como poucos sabem, a grande Minas Gerais influenciou a cultura de Saracusa por muitos anos. Dizem que o prato predileto do rei Dionísio era o Tutu de feijão com almôndegas à romanesca (mas essa já é ouuutra história).
Certamente devem estar pensando:
* O escriba está bêbado.
* Por que seria o Alfaiate um herói?
* William Wallace é o cara do Coração Valente?
* Que vontade de comer queijo minas.
Pois bem. Estou bêbado. Não mentirei para vocês.
William Wallace é o rapazote do Coração Valente. Filme lindo que nunca consegui ver inteiro.
Queijo minas é uma delícia, mas nem sempre é apropriado comê-lo. Que o digam as Ferpas do estábulo de meu tio Rubens (que Deus o tenha).
Ah! Por que seria o alfaiate um herói?
Pois respondo.
Porque:
* Afundado até o pescoço pela lama suja de excrementos de porcos, cavalos e homens;
* Acompanhado de ratazanas que mais pareciam capivaras dormindo ao seu lado roendo um pedacinho de sua orelha todas as noites;
* Trabalhando arduamente todos os dias, todas as horas, para ganhar míseras moedinhas que mal davam para comprar miojos e biscoitos da sorte dos chineses que lá viviam...
o Alfaiate foi capaz de se apaixonar. E saiu gritando em meio ao caos tal qual Arquimedes, com uma rato preso pelos dentes em sua orelha esquerda ensanguentada, que a paixão foi o sentimento mais bonito que tinha sentido.
Estava feliz e riu pro mundo.
O Paraíso estava dentro do peito do Alfaiate de Saracusa. E não há merda ou lugar caótico que tirasse isso dele.
Amém.
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