sábado, 16 de outubro de 2010

Off Topic: Eleições, eleições, eleições...

Realmente temos uma grande vocação para o país da cordialidade. O que discute mais escalação de treinador da seleção de futebol do que política. O país do "Não tem problema. Com cabeça erguida e fé no futuro, tudo se resolve!".

Em ano de eleições presidenciais e Copa do Mundo isso fica explícito. Esqueçam-se Malufs, Rorizes, Sarneys e congêneres: o maior crime de lesa pátria da história foi a chuteirada que o Felipe Mello deu no holandês. Ou o destempero de Dunga em frente ao jornalista da Vênus platinada. Ou as ditas "mãos de alface" do goleiro Júlio César. Eleições, política, futuro do país? Pra que se somos um dos povos mais felizes do mundo, com todas as intempéries que o Brasil passa?

Até agora, não temos nos importado de verdade com discussões políticas, propostas, ideologia, projetos de país. Exercemos o nosso quinhão de politização quando criticamos o dólar na cueca e o voto no Tiririca. Realmente julgamos negativamente, apontamos, caçoamos, como se fossemos a pessoa mais politizada do mundo, aquele voto fanfarrão no palhaço. Mas frequentemente não lembramos sequer para quem votamos para Senador nas últimas eleições, em 2006...

E porque seria isso? Realmente somos um povo fadado à despolitização, ao voto de cabresto, à manipulação eterna? Seríamos, de fato, uma nação alegre mesmo sem direitos básicos, sem cidadania, sem renda? Porque aturarmos eternamente essa cordialidade descamisada, excludente, concentradora de renda?

As eleições presidenciais deste ano simplesmente mostraram isso: não há interesse na discussão de grandes temas, de projetos e propostas. Do lado governista, vimos uma propaganda calcada no excesso de marketing, mostrando o Presidente da República como o "grande timoneiro" tupiniquim, o pai do povo que entregaria-o à candidata recém apresentada. Do lado do principal candidato da oposição, vimos simplesmente um indivíduo que parecia postular ao Ministério da Saúde, haja vista sua falta de conteúdo e projetos coerentes para o Brasil.

Foi a luta do IBGE contra os Genéricos, tendo como coadjuvante bandeiras copiadas e coladas do site do Greenpeace, posteriormente substituída por um moralismo de araque, de fazer corar qualquer cidadão acostumado a um debate político de alto nível. Ora, pois!

Parece que a politização, de fato, não é bem-vinda, pois é de interesse de todos uma população domesticada, atônita, que só sai de casa com a cara pintada quando a família Marinho decide que o carinha sentado no trono não merece mais esse lugar. É realmente triste verificar que os anos de chumbo da ditadura militar, que a nossa geração não teve que suportar, foi o início de uma campanha maciça para transformar a política em uma coisa chata para os jovens, terreno apenas de velhos burocratas decrépitos e egocêntricos.

Transformaram grande parte da nossa geração em indivíduos que amam causas sociais, como o greenpeace ou ong's que ajudam combalidos, mas nos transformam em verdadeiros algozes quando entramos no terreno da política, porque simplesmente fomos ensinados a pensar que este campo é o da corrupção, da formalidade, dos grandes esquemas...

Sim, todos nós fizemos parte de um sistema educacional que não educa, não forma cidadãos críticos, e que tem como medida do sucesso a lista da FUVEST, ou da UNICAMP, refletindo desde que nascemos a lógica do mercado, do sucesso a qualquer custo.

Neste contexto, o segundo turno está aí, e o que importa agora é analisar e escolher qual modelo de Estado e de governo queremos para os próximos quatro anos. É tempo de romper a barreira da despolitização, para que saiam de pauta temas umbilicalmente ligados à hipocrisia e ao falso moralismo, para que haja uma escolha madura do projeto de país que mais se adeque aos anseios populares, pela constante busca na diminuição das desigualdades de renda e regionais, pelo apoio e atenção aos movimentos sociais e por um país mais justo e soberano.

Para isso, é preciso que as pessoas deste país, principalmente os jovens, descubram que a política é o dia-a-dia, é o assunto cotidiano, é o que queremos pro nosso bairro, pra nossa cidade, pro nosso país. É a indignação com a precariedade do ônibus que pegamos para a faculdade, é a nossa vontade de sair às ruas sem o medo de ser assaltado, é pela organização e racionalidade do poder público.

Tanto que é de se parabenizar a mobilização da população em torno da ficha limpa que, a despeito de toda a discussão acerca de sua constitucionalidade, foi um importante instrumento de moralização do nosso processo eleitoral.

Chega da alegria, da cordialidade descamisada e da falta de politização. É hora de discutirmos, mais e mais, nas ruas, nas escolas, nos centros comunitários, nos campos de futebol de terra batida, nos chá de dondocas, nas redes sociais, o que queremos e que tipo de candidato e partido queremos para alcançar nossos objetivos e vontades. E também de se indignar, sem perder o traço característico que nos faz um dos melhores povos do mundo.

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